Matemática DiscretaFunções, Sequências e Relações
Conjuntos e Álgebra de Conjuntos
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Pertinência e inclusão
Um conjunto é uma coleção bem definida de objetos: dado um objeto , dá para decidir se está ou não na coleção. Os objetos que estão lá são os elementos. Em matemática discreta e em computação, usamos conjuntos para descrever uma coleção sem ordem e sem repetição: valores possíveis de um tipo, chaves de uma tabela, o domínio de uma variável. As mesmas operações descrevem subconjuntos da reta, o conjunto das partes e a leitura de um diagrama de quatro conjuntos.
A ordem e a repetição na escrita não mudam o conjunto: . Só contam quais objetos pertencem.
Dois jeitos de escrever o mesmo conjunto:
- Por extensão (lista): .
- Por compreensão (propriedade): .
Pertinência. Escreve-se quando é elemento de , e quando não é. Pertinência e inclusão usam símbolos diferentes: é verdadeiro; é falso, porque não é um dos três números.
Inclusão. significa: todo elemento de também é elemento de . Em símbolos, implica . Por isso sempre. O vazio (o conjunto sem elementos) satisfaz para qualquer : não existe elemento de que falhe o teste. Já , porque tem um elemento: o próprio vazio.
Igualdade de conjuntos. Comparar dois conjuntos é comparar os elementos. significa e : os mesmos elementos, nas duas direções. e diferem só na ordem da lista; pelas duas inclusões, são o mesmo conjunto.
O universo é o conjunto de todos os objetos em jogo no problema. Complemento só faz sentido relativo a um fixo.
União, interseção, diferença e complemento
Fixado , quatro operações:
| Operação | Definição |
|---|---|
| união | |
| interseção | |
| diferença | |
| complemento |
O "ou" da união é inclusivo: pode estar nos dois. União e interseção são comutativas (, ) e associativas. e . O vazio é identidade da união (); o universo, da interseção (). Diferença não comuta: em geral não é . A barra é a mesma diferença .
Diferença e complemento. é o mesmo teste que e , logo
Complemento: , , e involução : negar duas vezes devolve o conjunto.
Absorção. : intersectar com uma união que já contém devolve , porque a interseção só mantém elementos de . O dual é .
Distributividade. Estar em e (em ou em ) é o mesmo que estar em ou em :
e o dual . O teste de pertinência de é idêntico nas duas escritas, ainda que apareça em ambos os lados.
De Morgan. significa que não está em nem em , isto é, e . Logo . O dual: significa que falta em pelo menos um dos dois, então .
Exemplo: ,
Universo .
Percorra : , está em e em , , não está em nenhum dos dois. .
Só passou nos dois testes: .
e ; , então sai. .
Em e fora de : e , logo . Fora de : e , logo . O entra nos dois complementos porque, no passo da união, já não estava em nem em .
, mas porque e .
Absorção: . Complemento dentro da diferença: .
Simplificar uma expressão com complementos
A expressão tem complementos dentro de e . A cadeia só reescreve o teste de pertinência.
Interseção comuta: . O primeiro termo já está na forma . Fica . Sem esse alinhamento, o fator comum não aparece à esquerda nos dois ramos.
Os dois ramos da união têm à esquerda. Distributividade de sobre lê isso de trás para frente:
O teste é o mesmo: está em e também está em ou em .
está fora de ou fora de exatamente quando não está em . Isso é . Substitui:
Os elementos de que não estão em e ao mesmo tempo coincidem com as duas primeiras escritas: ou . Nada foi acrescentado nem cortado: só mudou a forma.
Nessas cadeias, a ordem usual é comutar para alinhar o fator comum, distribuir para fatorá-lo e aplicar De Morgan para trazer os complementos para fora (ou para dentro) de um ou . Absorção e involução encurtam o que sobra: , e .
Interseção de listas finitas
Sejam
Queremos : os inteiros que satisfazem as duas propriedades.
Inteiros de a : . Pares de a : . Sem essa expansão, " par até " parece caber inteiro em .
Percorra e teste pertinência em : (é negativo), (ímpar), , , , . Logo
O e o estão em , mas e , então não estão em . Interseção é a parte comum das duas listas.
Outra lista: e . Todo elemento de está em , e tem e a mais: e , portanto e . A ordem na escrita não conta: .
Subconjunto próprio
(subconjunto próprio) significa e : todo elemento de está em , e falta pelo menos um de . A negação vale sempre que , nas duas leituras usuais de (própria ou não): se algum elemento de já está fora de , a inclusão própria também falha.
A negação segue da não-inclusão porque é condição necessária de ; se ela cai, cai.
No exemplo das listas, e , logo . Já porque e , e portanto também .
como semirretas
Nas listas finitas de , a compreensão vira uma enumeração. Na reta, a mesma compreensão vira intervalos. O valor absoluto é a distância de a : se e se . Escreve-se (extremos de fora) e com os dois extremos; uma semirreta fechada inclui e tudo à esquerda.
Queremos escrever como união de intervalos.
, então a desigualdade é . Esses pontos formam a semirreta fechada .
, então , ou . Sem trocar o sinal, a desigualdade apontaria para , que este caso exclui. Esses pontos formam a semirreta .
Os dois casos cobrem a reta:
Geometricamente, é a união das duas semirretas fechadas que começam em e em e apontam para o infinito. Os extremos entram: e . O intervalo aberto fica de fora, porque ali : e .
Diferença de intervalos abertos aninhados
Para cada positivo, . Os extremos e não pertencem a . Se , então , logo : o intervalo menor está dentro do maior.
A diferença pede os com que não satisfazem . O ponto não está em (aberto à direita) e está em , porque . Esse extremo interno permanece na diferença, e o intervalo fecha à esquerda:
O intervalo aberto cortaria , que pertence à diferença.
Diferença não é associativa
Sejam , e .
, porque sai. Então .
. Tirar não muda: , logo .
O está em . À esquerda, impede , então permanece em . À direita, exige , e cai.
União e interseção associam. A diferença não: . Em geral .
significa e , isto é e (ou , ou ). Já exige , e . O deste exemplo é um que pertence ao primeiro conjunto e não ao segundo.
União e interseção com um conjunto fixo
Sejam e . Então e .
Se , : o está em e fora de , então precisa aparecer na união; em ele não está.
se reconstrói como . O primeiro pedaço é o que compartilha com ; o segundo é o que tem fora de . Só reproduz os dois.
O par determina : se e , então .
Todo ou está em , e então logo ; ou está fora de , e então com , logo . Simetricamente .
Cardinalidade da união de disjuntos com diferença
Sejam , e . .
(o está em ). (o está em ).
Os três pedaços , e são disjuntos e cobrem a união . , , , e .
Cada já não encontra , e os continuam disjuntos entre si. A união parte-se em mais esses restos, sem sobreposição entre os pedaços e sem lacuna na cobertura; as cardinalidades somam.
Se são dois a dois disjuntos ( para ), então
Conjunto das partes
O conjunto das partes (conjunto potência) de é a coleção de todos os subconjuntos de :
Os elementos de são conjuntos. Pertinência não transfere para as partes: não implica . O teste pede que todo subconjunto de seja subconjunto de , o que exige , não .
Exemplo: e . Então . Mas falharia porque , logo e .
Monotonicidade do conjunto das partes
Sejam e . porque .
. e , então os dois estão em . Logo .
O operador é monótono na inclusão: se , então .
Tome , isto é . Com e inclusão transitiva, , logo .
Subconjunto de um conjunto enumerável
Os números pares em cabem na lista : da lista de , retêm-se só os pares.
Um conjunto é enumerável quando seus elementos cabem numa lista (finita ou infinita), sem omitir ninguém: é finito ou está em bijeção com — uma função que a cada elemento de associa exatamente um natural, a posição na lista.
Todo subconjunto de um enumerável é enumerável: da lista de , retêm-se só os termos que estão em . Isso é um recorte da lista, sem exigir um algoritmo que decida a pertinência.
O análogo para linguagens recursivamente enumeráveis (RE) — as que alguma máquina de Turing aceita (procedimento com fita ilimitada e estados que lê e escreve, e aqui reconhece as palavras) — não vale: um subconjunto de uma linguagem RE pode não ser RE.
(palavras finitas sobre um alfabeto finito, um conjunto finito de símbolos) é enumerável, e portanto todo é enumerável como conjunto; ser RE pede a máquina. Há subconjuntos de que nenhuma máquina aceita; esses subconjuntos ainda são enumeráveis no sentido conjuntista.
Lúnulas num Venn de quatro círculos
Quatro círculos dispostos em quadrado: no canto superior esquerdo, no superior direito, no inferior esquerdo, no inferior direito. A sobreposição de um par vizinho é uma lúnula (a região em forma de lua da interseção de dois discos). é a lúnula vertical de baixo; é a lúnula de cima. O centro do diagrama, onde os quatro discos se cruzam, é a interseção quádrupla .
Cada lúnula par-a-par é só a interseção daquele par; o centro exige pertinência nos quatro ao mesmo tempo. Exemplo: um ponto só na lúnula de baixo está em e fora de e de ; um ponto no centro está nos quatro.
Em Resumo
Conjunto: coleção bem definida; é pertinência, é inclusão. são duas inclusões. ; . é inclusão própria ( e ); vale sempre que .
Operações: , , , . Diferença é e não associa: . União e interseção com fixo determinam o outro conjunto.
De Morgan e distributividade. Cadeia com complementos: comutar, distribuir, De Morgan.
Na reta: , com de fora. Diferença de intervalos abertos aninhados: .
quando os são disjuntos. ; não implica , mas implica .
Todo subconjunto de enumerável é enumerável (sem algoritmo); o análogo RE falha. Num Venn de quatro círculos em quadrado, e são lúnulas par-a-par e o centro é .