Inteligência ArtificialLinguagens Simbólicas
Introdução às Linguagens Simbólicas
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Uma linguagem simbólica é um sistema formal: um vocabulário de símbolos, regras que dizem quais cadeias desses símbolos são fórmulas, e uma interpretação que liga cada fórmula a um mundo. Em inteligência artificial, o conhecimento vai escrito nessas fórmulas; a máquina deriva conclusões manipulando as expressões, não interpolando um vetor de números.
Se a conclusão "Rex late" veio de "Rex é cachorro" e "todo cachorro late", dá para mostrar a cadeia. Cada passo da derivação é um objeto da linguagem, com estrutura que se pode verificar. Sem essa disciplina, "símbolo" vira metáfora e qualquer texto vira "conhecimento".
As três peças são símbolo, sintaxe e semântica, em contraste com aprender pesos. Frames (quadros), redes semânticas, regras de produção e encadeamento para frente ou para trás aparecem só como nomes no fim; a derivação fica para as páginas de representação do conhecimento.
Símbolos atômicos e compostos
Um símbolo é um identificador discreto: nome de objeto, de conceito, de relação ou de valor. Não tem "meio símbolo". A distinção que a gramática usa é outra:
- Atômico: peça indivisível, sem estrutura interna que a linguagem reconheça. Exemplos: a constante
ana, o predicadoCachorro, a proposição . - Composto: combinação de atômicos (e de compostos menores) segundo construtores da linguagem. Exemplos:
Cachorro(rex), , a lista[a, b].
Um predicado tem aridade: o número de argumentos que pede. Cachorro tem aridade ; Mãe teria aridade . A aridade é sintaxe (quantos termos cabem); quem é mãe de quem fica na semântica.
A gramática não se aplica "ao conhecimento": aplica-se a como as peças se encaixam. Sem átomos não há alfabeto; sem compostos não há relação nem sentença, só um saco de nomes. Não confunda átomo da linguagem (unidade sintática) com fato verdadeiro: Cachorro(ana) é um composto bem formado mesmo que, no mundo, Ana não seja um cachorro.
Por exemplo, o vocabulário proposicional , lido como "chove" e "a rua molha". é atômico. é composto: uma raiz com duas folhas. A cadeia junta os mesmos caracteres e não é composto: o construtor exige um antecedente e um consequente, cada um já fórmula, nesta ordem. Ainda não perguntamos se chove; só se a cadeia é uma fórmula.
Sintaxe: fórmula bem formada
A sintaxe é o conjunto de regras que decide quais sequências de símbolos são fórmulas bem formadas (FBF). Fala só de forma: quais construtores existem, quantos argumentos cada um pede, onde vão parênteses e quantificadores. Não fala de verdade.
Na lógica proposicional, o recorte mínimo é:
- todo atômico (, , , …) é FBF;
- se é FBF, então é FBF;
- se e são FBF, então , e são FBF;
- nada mais é FBF.
Na lógica de predicados entram termos, expressões que nomeiam um objeto: constantes (ana) e variáveis (x). Se tem aridade e é termo, é FBF. Se é FBF, também é. Uma ocorrência de está livre em se não cai no escopo de um ; o quantificador liga essas ocorrências. Sem isso, nem sequer é candidato a FBF: falta o termo.
Essas regras induzem uma árvore de análise: a raiz é o construtor principal; as folhas são atômicos. Sem a árvore, não há o que interpretar nem o que reescrever.
)
Percorrer de dentro para fora: é FBF (atômico); é FBF; casa com a regra do ; casa com a regra do . A cadeia falha no segundo : aquele construtor pede duas FBFs e encontra outra cópia de no lugar da segunda. O motor que recebe não "quase entende": rejeita a cadeia.
A sintaxe vem antes da verdade. "Fórmula bem formada" quer dizer gramaticalmente ok; o valor de verdade só existe depois de uma interpretação. Não confunda cadeia aceita com sentença verdadeira.
Semântica: interpretação num domínio
A semântica atribui significado a uma FBF. Uma interpretação escolhe:
- um domínio , o conjunto de objetos sobre os quais as sentenças falam;
- uma denotação para cada símbolo: constantes viram elementos de ; um predicado de aridade vira uma relação -ária em (para aridade , um subconjunto de ).
Os conectivos não "apontam" para objetos: ganham uma cláusula de verdade. vale sob exatamente quando não vale. vale salvo no caso em que vale e falha; antecedente falso já basta para a implicação passar. vale se, para todo , vale quando denota ; um único que falhe derruba o universal.
Com isso, cada FBF recebe um valor, verdadeira ou falsa sob . A fórmula é tinta; é o mundo. Muda , pode mudar o valor; a cadeia de símbolos continua a mesma.
Sintaxe pergunta "esta cadeia é uma sentença?". Semântica pergunta "nesta interpretação, a sentença vale?". Sem as duas, o sistema não sabe nem o que contar como termo, nem o que o termo afirma. Não confunda trocar a interpretação (o mesmo texto, outro mundo) com trocar a fórmula (outro texto, talvez o mesmo mundo).
Cachorros, pessoas e uma sentença universal
Linguagem : constantes ana, rex; predicados Pessoa e Cachorro (aridade ); conectivos , ; quantificador . A sentença que vamos ler é
Em português: nenhum objeto do domínio é, ao mesmo tempo, cachorro e pessoa; todo cachorro deixa de ser pessoa.
| Peça | Papel |
|---|---|
ana, rex, Pessoa, Cachorro |
atômicos (constantes e predicados) |
| variável: termo, não nome próprio | |
Cachorro(x), Pessoa(x) |
compostos (predicado + termo) |
Cachorro(x) → ¬Pessoa(x) |
composto maior |
| ligando o livre da implicação |
Nada disso ainda é "verdadeiro": são formas.
De dentro para fora. Cachorro(x) casa com "predicado de aridade + termo". Pessoa(x) idem. casa com a regra do . A implicação casa com a regra do . Prefixar a uma FBF com livre produz uma FBF. A cadeia não passaria: depois de Cachorro falta o argumento, e o fica sem antecedente completo.
A árvore tem raiz ; o filho é ; à esquerda Cachorro(x); à direita sobre Pessoa(x). Essa árvore é o objeto que a semântica percorre.
Seja , com ana e rex. Ponha
Cada predicado virou um subconjunto de . Não há "peso" associado a Ana: ou ela está em , ou não está.
Seja . O universal vale sob só se vale para todo .
- . Antecedente : Ana , logo falso. Consequente : Ana , logo o consequente é falso. Mesmo assim vale: implicação com antecedente falso não exige o consequente.
- . Antecedente verdadeiro (Rex ). Consequente verdadeiro (Rex ). Os dois lados coincidem; vale.
Nenhum falhou; é verdadeira sob esta . Se tivesse um terceiro objeto fora dos dois conjuntos, o antecedente seria falso nele e o universal ainda passaria: o olha o domínio inteiro, não só os "casos interessantes".
Mantenha e a cadeia . Redefina e deixe . Em o antecedente agora é verdadeiro e o consequente continua falso: cai. Um único elemento basta; fica falsa. A árvore do Passo 2 é a mesma. Mudou o mundo, não o texto. Isso é o que "interpretação num domínio" nomeia.
Abordagem simbólica e aprendizado por pesos
Na abordagem simbólica, o que o sistema "sabe" está escrito em fórmulas; o que ele "faz" é aplicar regras de inferência a essas fórmulas. A justificação de uma conclusão é uma sequência de FBFs. Nada nisso ajusta um número a partir de exemplos: se falhou no Passo 5, ou se acrescenta uma sentença nova, ou se corrige , não se treina .
Aprender pesos é outro objeto. Uma rede guarda um vetor de reais; um algoritmo de treino (por exemplo descida de gradiente) mexe em para que a saída se aproxime de rótulos. O "conhecimento" está distribuído nesses números: não há um slot chamado Cachorro nem uma sentença que se possa imprimir. Depois do treino, marcar "Rex" como cachorro é o resultado de ; não é a avaliação de sob uma . Inverter numa FBF em geral não é possível.
Os dois mecanismos reagem diferente ao erro. Se falhou no Passo 5, o conserto simbólico é local: tira Ana de , ou acrescenta uma exceção explícita. Se errou o rótulo de Ana, o treino espalha um ajuste por muitos : não há um símbolo para editar.
Não confunda acertar um rótulo com interpretar uma fórmula. Um classificador pode, a partir de áudio, marcar "late" com alta confiança e ainda assim não conter nem um domínio . Híbridos existem (a rede percebe, o formalismo justifica); são dois mecanismos distintos.
A linguagem simbólica carrega o conhecimento; o esquema escolhe como organizá-lo. Frames (quadros com slots), redes semânticas, regras de produção e o encadeamento para frente (dos fatos às conclusões) ou para trás (do objetivo aos fatos) não repetimos essa derivação aqui.
LISP e Prolog são as linguagens clássicas que escrevem essas expressões: S-expressões de um lado; fatos, regras e unificação do outro.
Em Resumo
Símbolo atômico é peça indivisível; composto é combinação segundo a gramática —
Cachorro(rex)é composto, mesmo que o fato seja falso.Sintaxe decide quais cadeias são fórmulas bem formadas; a árvore de análise é o objeto a interpretar. Cadeia aceita ≠ sentença verdadeira.
Semântica é interpretação num domínio : predicados viram relações e a FBF ganha valor de verdade. A mesma muda de valor se muda.
IA simbólica manipula fórmulas explícitas; aprender pesos ajusta números a partir de dados. Classificar um rótulo e interpretar são tarefas diferentes.
Frames, redes semânticas, produções e encadeamento frente/trás só se nomeiam aqui; a derivação fica nas páginas de representação do conhecimento.